Problemas causados por instalação incorreta de ar condicionado
O verão paulistano tem um roteiro conhecido. A temperatura passa dos 35 graus, a sensação térmica beira os 40, e a procura por ar-condicionado dispara nas lojas e nas assistências da capital.
Uma família compra um split novo, de marca reconhecida, agenda a montagem com o primeiro técnico que aparece por um preço abaixo do mercado e respira aliviada nos primeiros dias.
Semanas depois, começa o incômodo: o aparelho gela pouco, faz um barulho estranho, pinga água na parede e a conta de luz vem mais salgada do que o esperado.
O reflexo natural é culpar o equipamento. Na maioria dos casos, porém, o problema não está na máquina recém-comprada, e sim no serviço que a colocou na parede.
Ar-condicionado é um dos poucos produtos domésticos em que a qualidade da instalação pesa tanto quanto a qualidade do próprio aparelho. Um modelo excelente montado às pressas rende menos, gasta mais e dura bem menos do que deveria.
Em São Paulo, onde o calor extremo empurra a demanda para cima todo verão, esse improviso se multiplica na mesma velocidade em que crescem os anúncios de instalação barata.
Quando o defeito não está no aparelho, mas na instalação
Boa parte das reclamações registradas como “aparelho com defeito” nas assistências técnicas tem origem em erros de montagem.
A Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento, a Abrava, há anos alerta para o avanço do trabalho informal no setor, com profissionais sem qualificação que oferecem preços baixos e ignoram etapas técnicas essenciais.
A instalação de um sistema split não se resume a furar a parede e pendurar as unidades. Existe uma norma específica para isso, a ABNT NBR 16401, que trata dos requisitos de projeto e execução de instalações de ar-condicionado.
Quando essas etapas são atropeladas, o defeito não aparece na hora. Ele se manifesta semanas ou meses depois, justamente quando o comprador já perdeu o contato com quem fez o serviço e precisa arcar sozinho com o conserto.
O vácuo que ninguém vê e a fatura que aparece depois
O erro mais comum, e um dos mais caros, também é o mais invisível. Antes de liberar o gás para o sistema, o técnico precisa fazer vácuo na tubulação, um procedimento que retira o ar e a umidade de dentro das linhas de cobre. Parece detalhe, mas não é.
Quando o vácuo é ignorado, umidade e impurezas ficam circulando junto com o gás refrigerante. O resultado é um compressor que trabalha forçado, esquenta demais e falha antes da hora. Enquanto isso não acontece, o aparelho ainda funciona, só que consumindo mais energia para gelar menos.
Boa parte do susto na conta de luz de fim de mês nasce exatamente aí, num passo que levaria poucos minutos e que muitos instaladores pulam para entregar o serviço mais rápido e fechar o próximo.
O cálculo de BTU que sai caro
Antes mesmo de montar, existe uma conta a ser feita. A capacidade do aparelho, medida em BTUs, precisa corresponder ao tamanho do ambiente, ao número de pessoas, à incidência de sol e à quantidade de equipamentos que geram calor no cômodo.
Um quarto voltado para o poente, que recebe sol forte à tarde, pede mais capacidade do que um cômodo sombreado do mesmo tamanho.
Um aparelho subdimensionado nunca alcança a temperatura desejada e fica ligado o tempo todo tentando dar conta. Um superdimensionado liga e desliga em ciclos curtos, o que desgasta os componentes e também desperdiça energia.
O Inmetro, por meio do Programa Brasileiro de Etiquetagem e do Selo Procel, classifica a eficiência dos aparelhos justamente para orientar essa escolha.
De nada adianta, porém, comprar um modelo classe A se o dimensionamento na hora da instalação estiver errado. A etiqueta promete economia que só se confirma quando o equipamento certo é colocado no lugar certo, do jeito certo.
A condensadora no lugar errado
A unidade externa, a condensadora, é outra fonte frequente de dor de cabeça. Ela precisa de espaço para dissipar calor e de ar circulando ao redor. Instalada num vão apertado, encaixotada entre paredes ou exposta ao sol o dia inteiro, ela trabalha sob esforço e perde rendimento.
Segundo uma empresa de instalação de ar condicionado em SP, uma parte considerável dos chamados de retorno no verão vem de condensadoras posicionadas em locais sem ventilação adequada ou fixadas em suportes frágeis, que passam a vibrar e a fazer barulho depois de algumas semanas de uso.
O posicionamento correto, a nivelação e o suporte dimensionado para o peso do equipamento evitam boa parte desses retornos. São detalhes que o cliente raramente enxerga na hora, mas que definem se o aparelho vai durar cinco ou quinze anos.
Fiação subdimensionada e o risco escondido
Nem todo problema de instalação se resume a desempenho. Alguns são de segurança. O ar-condicionado é um aparelho que puxa bastante energia e, por isso, o ideal é que tenha um circuito elétrico próprio, com disjuntor compatível com a potência do modelo.
Quando o instalador liga o aparelho numa tomada comum, dividindo o circuito com outros equipamentos, ou usa uma fiação mais fina do que a recomendada, o risco de sobrecarga aumenta.
Fios que esquentam além do previsto, disjuntores que desarmam sem explicação e, nos casos mais graves, princípios de incêndio na parede são consequências de uma parte elétrica malfeita. Esse é o tipo de economia que sai caro, porque coloca o imóvel e as pessoas em risco.
Quando o ar mal instalado vira caso de saúde
Existe ainda uma dimensão que muita gente esquece: a qualidade do ar que se respira. Um dreno mal inclinado acumula água, e água parada dentro do aparelho vira criadouro de mofo e bactérias.
Filtros mal encaixados deixam passar poeira. Em ambientes fechados e climatizados, isso tem impacto direto na saúde de quem passa horas ali dentro, das crianças aos idosos e a quem já convive com problemas respiratórios.
A Anvisa trata do assunto na Resolução RE nº 9, de 2003, que estabelece padrões de qualidade do ar interior em ambientes climatizados artificialmente.
Há ainda a exigência de um Plano de Manutenção, Operação e Controle, o PMOC, para determinados ambientes de uso coletivo. Sistemas de climatização sem manutenção adequada estão associados à proliferação de micro-organismos como a bactéria Legionella, responsável por infecções respiratórias.
Uma instalação bem feita, com dreno correto e acesso facilitado para limpeza, é o primeiro passo para que esse cuidado seja possível ao longo do tempo.
Trocar filtros e higienizar o aparelho com regularidade completa a rotina, mas nada disso adianta se a base, a instalação, já nasceu torta.
A garantia de fábrica que vai embora calada
Poucos compradores leem as letras miúdas do manual, mas quase todos os fabricantes exigem que a instalação seja feita por profissional qualificado para que a garantia continue valendo. Um serviço amador, sem nota e sem comprovação técnica, muitas vezes anula esse direito.
O detalhe cruel é que ninguém avisa na hora. O consumidor só descobre que perdeu a garantia quando o aparelho apresenta um defeito sério, aciona a marca e ouve que a cobertura foi invalidada por instalação inadequada.
Naquele momento, a economia feita na montagem já virou um prejuízo bem maior, com o custo integral do reparo no colo do dono.
Como saber se o serviço foi bem feito
Alguns sinais ajudam a separar um bom profissional de um improviso. Convém perguntar se o técnico faz o vácuo do sistema e observar se ele mede a tubulação, verifica a rede elétrica e avalia o melhor ponto para a condensadora antes de começar.
Empresas sérias entregam nota fiscal, oferecem garantia por escrito do serviço e, quando o projeto exige, emitem a documentação técnica correspondente, como a ART. Também é sinal de cuidado quando o profissional explica cada etapa e não trata o vácuo ou o teste da parte elétrica como perda de tempo.
Comparar apenas o preço costuma ser o caminho mais curto para o arrependimento. O orçamento mais barato quase sempre esconde etapas suprimidas, materiais de qualidade inferior ou mão de obra sem preparo.
Diante de um equipamento que vai funcionar por muitos anos e influenciar a conta de luz todos os meses, contratar quem faz o serviço completo deixa de ser gasto e passa a ser proteção do próprio investimento.
No fim, o ar-condicionado que gela bem, consome pouco e não dá trabalho é quase sempre aquele que foi instalado com calma, medida e técnica.